segunda-feira, novembro 22, 2010

CONTO "EM POUCAS PALAVRAS"

“Caro Luís...”.
Rita coçou o queixo. Esse começo estava formal demais, frio demais. A garota não queria passar impressão de distanciamento na carta, não depois do ano que se passara.
“Querido Luís...”.
- Não, meloso demais. – Pensou Rita. Assim como não queria parecer distante demais, não queria que fosse tão íntimo. Ele não merecia.
“Luís”.
- Assim está melhor. – Sussurrou. O distanciamento certo.
“Seu animal estúpido! Como não pôde perceber...”.
Rita parou. Por mais raiva que sentisse, não queria começar tão agressivamente. Riscou a última frase, e recomeçou:
“Apesar de tudo o que eu disse e fiz, você nunca percebeu a verdade. Nunca percebeu o quanto...”.
Uma lágrima pingou no papel. Escrever fez com que Rita se lembrasse de tudo, dos momentos dolorosos... Mas ela tomara uma decisão. Precisava desabafar, confessar o que sentia, porque aquela era a última oportunidade.
Secando uma lágrima que escorrera por seu nariz, continuou. Colocou no papel tudo o que sentia e, estarrecida, percebeu que já escrevera mais de três páginas.
- Não posso fazer algo tão longo assim, ele não vai ler. – Constatou. O infeliz provavelmente já não se interessaria por sua carta, ainda mais se fosse longa. Rita precisava ser sucinta.
Mas a garota não conseguia se acalmar. Começava a chorar quando se lembrava de todo o sofrimento que ele lhe fizera passar. As crises de choro, as noites mal-dormidas, as falsas esperanças alimentadas...
Tudo isso até o baque final. Tudo o que ela pensara ser possível, os sonhos que tiveram foram destruídos ao descobrir que ele não a amava. Ela não iria namorá-lo, casar-se com ele, ter filhos... Todos os sonhos haviam sumido, o que restara fora a dor.
Rita caminhou até o armário, onde guardava o que seria seu último alimento. Do vidrinho, tirou um comprimido branco. Fingindo ser uma bala, a garota o engoliu. Um antes da hora não devia fazer diferença. Em poucos minutos, as lágrimas cessaram, e Rita pôde continuar a carta.
Momentos depois, ao terminar de escrever, releu, e ficou satisfeita. Era exatamente o que ela queria dizer, em poucas palavras.
Saboreando seus últimos momentos, pegou na gaveta a foto dele, e a beijou.
- Adeus, meu amor. Te odeio. – Disse, antes de engolir todas as pílulas do vidrinho.
Depois do último suspiro, abraçou a carta que ele leria, quando a encontrassem:
“Luís,
Adeus para sempre. Assim como te amei mais que tudo, te odiei com todas as minhas forças. Nunca mais me magoará ou me usará. Não sou seu brinquedo.
Até nunca mais, meu amor, meu ódio.
                                                             Rita.”