“Respeitável público, é com prazer que vos apresento o palhaço Inácio!”. Assim ele era apresentado àquele amontoado de gente. Nariz vermelho, roupa colorida, ele era arco-íris e pintava o céu – até então cheio de tempestades – das pessoas que estavam ali. Não que ficassem felizes. O público era algumas crianças sofridas e adultos amargurados, e todos traziam cicatrizes demais para lembrar o que era felicidade. Mas o colorido de Inácio os distraía e, de vez em outra, até arrancava um sorriso amarelo de um, e era isso que lhe valia.
Gostava do que fazia, o palhaço. Gostava do modesto cômodo que tinha no circo, do escasso público, e até do assustador animal com o qual dividia moradia. Era feliz, por assim dizer, no meio da melancolia que habitava aquele lugar que deveria ser morada da animação.
Estava lá mais uma vez ele, no palco de tamanho diminuto, trazia consigo balas que jogava para as crianças, sabia que as mesmas não as teriam em casa. E, em meio aquela chuva de pacotes coloridos, avistou, ao fundo, alguém preto e branco. “Parece Chaplin”, pensou. Era um mímico, fora contratado pelo circo dois dias atrás, e até então Inácio não o tinha visto, embora já vira mímico pela TV, apareciam às vezes nos programas de domingo. Vendo de perto aquela arte era mais bonita ainda, mais bonita que ser palhaço.
Fez então uma decisão. Sairia daquela apresentação e seria mímico, pareceria Charles Chaplin. Aplausos. A busca pelo primeiro sonho de palhaço estava prestes a começar. “Estão aplaudindo meu sonho”. Caminhou até o vestiário e de prontidão se atirou embaixo do chuveiro, com roupa, peruca e tudo, elas já não importavam, mímico não usava essas coisas. Foi se desfazendo aos poucos daquilo, ficava tão pálido, agora era só Inácio. Vestiu a roupa mais escura que encontrara, arrumou as malas e saiu sem ao menos se explicar. Na sua ignorância, acreditava que Chaplin atuara em “Cantando na Chuva”, e, andando pela rua, cantarolava com seu inglês inventado “Singing in the rain”, embora o sol se punha dando lugar ao céu estrelado sem o menor resquício de chuva.
Seus passos longos e rápidos foram interrompidos por um barulho mais alto que sua voz, e por um impacto que o amoleceu. Caía lentamente no chão, vinha a sua cabeça o colorido de sua vida inteira e o sonho. Ah, o sonho! Ele estava escorrendo ali, pelo meio do asfalto, junto ao sangue de Inácio. O primeiro sonho não estava acabado, pelo contrário, estava quase realizado. A cena era preto e branco e cheia de expressões dramáticas, era quase mímica! Aplausos vieram a sua cabeça. “Obrigado”, ele se ouvia responder, assistindo as balas coloridas caindo lentamente. Assim chegava ao fim sua mais grandiosa apresentação.