segunda-feira, novembro 22, 2010

CONTO "UM AMOR DESCONHECIDO"

Após ler a carta, Ana compreendeu que tudo aquilo que havia vivido naquela última semana não tinha sido por acaso. Percebeu que aquele turbilhão de sentimentos, por um completo desconhecido, realmente estava no seu destino.
Era véspera de ano novo, exatamente vinte e três horas. Ana estava na varanda de sua casa na praia quando recebeu uma mensagem no celular. Ficou toda animada, imaginando ser o garoto que ela havia conhecido alguns dias antes. 
Para sua surpresa não era ele, e sim alguém cujo número estava oculto e que havia lhe mandado a seguinte mensagem: "Espero que nessa virada de ano todos os seus sonhos se realizem e que, algum dia, eu tenha coragem para dizer o que realmente sinto por ti. Com carinho, E.". Ana não entendeu nada e coçou o nariz, gesto que sempre fazia quando estava confusa. A meia noite chegou e ela não conseguiu parar de pensar na mensagem que recebera e tentava imaginar quem poderia ter-lhe escrito.
No dia seguinte, por volta de oito da manhã, Ana resolveu caminhar na praia, que estava coberta de flores, oferenda a Iemanjá, trazidas pela maré. Sentou na beira do mar e pôs os pés na água. Ainda estava com dor-de-cabeça, resultado das várias taças de 'champagne' que tomara na noite anterior. 
Mesmo assim, não parava de pensar no desconhecido que lhe deixara intrigada com aquela mensagem. Estava nisso quando seus pensamentos foram interrompidos pela ardência que sentia na sola do pé. Em um primeiro instante, não compreendeu, mas ao ver aquele animal se afastando na água limpa e cristalina. Percebeu que tinha acabado de ser queimada por uma água-viva. Ana sempre foi um pouco escandalosa, e não foi diferente nessa vez. Saiu pulando em um pé só. Voltou para casa, e mesmo fazendo um baita barulho, ninguém acordou. Pegou a chave do carro e, com dificuldade, dirigiu até o hospital.
Ao chegar lá, viu uma cena que deveria estar se repetindo na maioria dos hospitais: pessoas bêbadas, vestidas de branco e enchendo a paciência dos poucos enfermeiros que atendiam no local. Apesar do grande número de pessoas, Ana foi atendida logo em seguida e, ao se encaminhar para o consultório médico, sentiu o celular vibrar. Era outra mensagem do tal desconhecido: "Receio que tenha acordado, mas não me contive em te enviar essa mensagem para reforçar o quanto gosto de ti, e estou ansioso esperando sua volta. Com carinho, E.".
Naquele momento, percebeu que aquelas mensagens só poderiam estar vindo de algum lugar perto de onde ela morava. Deixando a dor e a consulta de lado, voltou para o carro e pegou a estrada.
Ao chegar em casa, percebeu que sua caixa de correio estava cheia de contas, mas, em especial, havia um pequeno pacote sem remetente, com um papel preso, que dizia: "Com carinho, E.". Na mesma hora, Ana abriu o embrulho e ficou surpresa ao perceber que era um pacote de balas, e que não as comia já fazia alguns anos. Entrou em casa e ficou pensando quem era esse tal de "E.", e como ele sabia o número do seu celular, o endereço da sua casa e ainda as balas que ela mais gostava.
Alguns dias se passaram e as mensagens continuaram e ficaram cada vez mais íntimas. Ana começou a se ver envolvida num sentimento inexplicável. Uma mistura de curiosidade e atração. 
No sétimo dia após a primeira mensagem, Ana ficou à espera de mais uma, mas naquele dia não recebeu nenhuma. 
Por volta de dezoito horas, a campainha tocou e ela foi atender. Ao abrir a porta, não viu ninguém. Mas percebeu que, sobre o tapete de "Boas-vindas", havia uma carta presa a um pacote de balas idêntico ao que recebera dias antes. No mesmo instante, percebeu que só poderia vir de "E.". Pegou a carta, fechou a porta e foi até seu quarto.
Sentada na cama, sentiu uma angústia enorme, como se estivesse prevendo algo. Abriu a carta e começou a ler, lágrimas começaram a escorrer por seu rosto, pois, aos poucos, ela pode perceber que a história retratada na carta era a sua e que o até então desconhecido era o único homem que ela já amara: Edgar Cramuel, seu amor de adolescência que agora estava à beira da morte. 
Como ela não percebeu na época que ele também gostava dela. Teria sido tudo tão mais fácil. Agora já era tarde demais.
Aos soluços e com os olhos embaçados, Ana mal conseguia ler as últimas linhas: "...talvez o destino tenha sido injusto conosco, mas só agora pude perceber que as nossas escolhas devem ser feitas e executadas hoje. Afinal, ninguém pode prever o dia de amanhã. Viva tudo intensamente e não se esqueça de mim. Com carinho, Edgar."