segunda-feira, novembro 22, 2010

CONTO "PLANÍCIE AFRICANA"

Ele deu mais alguns passos, mas muito lentamente, buscando compensar seu peso excessivo. O calor nas planícies das savanas é escaldante, e o sol que flutuava a uma hora lançava seus raios contra o rosto dos caçadores.
- Respire vagarosamente, e mantenha o dedo no gatilho. – disse Jorge, já experiente em caçadas na savana. Mas não aperte muito, ou ainda irás atirar por descuido. Respire, Jean, respire.
Jean sentia o pulso forte, os batimentos acelerados e o suor excessivo escorrendo por sua têmpora. Apertou a mão contra o cabo. O cabo em mogno de sua Marlin 87. 22, que apontava precisamente para o pescoço do leão.
- Não mire na juba, uma .22 não passa por aquilo. Mire no centro dos olhos.
Era fácil falar, mas para o jovem Jean, que nunca havia matado um pássaro, era uma tarefa terrível.
- Você tem tempo, garoto. Ele vai ficar a comer aquela carcaça um bom tempo. Talvez até o fim da tarde! Sem pressa! - disse, coçando discretamente o nariz.
Ele respirou fundo, e apertou ainda mais as mãos contra o rifle.
E então atirou. O som do projétil ecoou pela planície, fazendo um grupo de aves levantarem vôo em algum emaranhado de árvores duzentos metros atrás deles. Jean estava aterrorizado, mas resolveu suprimir o medo e aparentar dureza. O leão estava lá, caído. Estava morto, sem ao menos se debater.
- Muito bom! Uma bala certeira! É assim que se acaba com um animal deste! – deu um tapinha nas costas do menino que tentava controlar a tremedeira. – Bom tiro, Jean.
Ambos se precipitaram em direção ao corpo inerte do leão, que agora concentrava uma massa significativa de sangue acima do focinho. Jorge cutucou-o com um galho, e nada aconteceu, a não ser o farfalhar dos pêlos sujos.
- Morto. O tiro foi preciso. – franziu o cenho enquanto se agachava perto do buraco da bala. – Irei escrever a carta ao seu pai, e notificarei sobre o ocorrido. Parabéns, Jean.
Jean movimentou a cabeça lentamente, concordando. O vento vespertino típico de fim de tarde se chocou contra o garoto, que, inerte como o leão, fitava o rifle caído em sua mão esquerda.
- E aí, menino? Qual a sensação? Boa, não? – perguntou Jorge, visivelmente deleitando-se com o trabalho bem feito.
- Boa, Jorge...
Mas não era. Jean se sentia mal, como se sua consciência desfalecesse sobre seus ombros com peso esmagador. Por que havia feito aquilo? Havia sido obrigado? Não! Apenas para provar que era capaz, que não era um medroso inofensivo, como seu pai gostava de repetir.
Agora seria considerado um homem, um homem maduro. Ele pensara que se sentiria feliz, orgulhoso do feito; mas agora, com o corpo ensangüentado aos seus pés, sentia como se tivesse mordido uma fruta podre.
- Vamos à taverna que tem na cidade, Jean. Vamos espalhar seu feito! – sorriu, deu mais alguns tapinhas afetuosos nas costas do garoto, e iniciou a caminhada de volta.
Jean, como que acordando de um devaneio, tratou de segui-lo.